sexta-feira, 2 de outubro de 2009








"hello, darkness..."
então lá vem ela
velha conhecida
empurrando
silenciosamente
todas as portas
que a mantiveram distante
durante todo este tempo
e, sem pedir licença
se aloja
se aninha
se enrola
nos meus lugares mais ermos
como se não fosse nada
e fica
grudada
presa
lá dentro
perfurando
mais um pouco
o pano ralo
da alma
lá vem ela.





quarta-feira, 17 de dezembro de 2008


esta chuva fina
não serve
nem diminui
o gosto de ferrugem
vidro quebrado
na garganta
nem desfaz
ou disfarça a ausência
que a distância constrói
gota a gota
segundo a segundo
e dilata ao máximo
como que para não deixar
que esqueçamos
que é assim mesmo
daqui a pouco
tudo acaba
sem ter começado

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

imagem: magdalena wanli
agora
a mão
quer impor sua vontade
o que o olho já disse
agora
é o tato que busca
estarei cega
de olhos vendados
tentando
atravessar o caminho
para não ver
mais do que
meus territórios invisíveis
sobrepondo-se aos seus
nossa cumplicidade
silenciosa
descumprindo
o protocolo


enfim.


domingo, 10 de agosto de 2008

imagem:paul klee


"the killing moon"
ela canta
como se estivesse falando com as pedras
desbravando o caminho
como se estivesse
dançando na meia lua
desenhada
nada do mundo que fica pra trás
nem promessas
nem os olhos do cão
ela sabe que precisa ir
de qualquer maneira
atravessar as cortinas de chuva
como se estivesse
pensando em voltar
mas ela nunca volta
nem olha pra trás.
nunca.

sexta-feira, 25 de julho de 2008


Nasci numa cidade pequena, no meio do mato, literalmente. Luz elétrica, automóveis e burburinho urbano não eram comuns para mim até os oito ou nove anos de idade (e nem faz tanto tempo assim!). Bicho-do-mato, saí de lá e quase me achei em outros lugares. Contam que meu avô materno descendia de “índios” bugres, que, dizem, eram nômades. Talvez venha daí minha inquietação e vontade constante de não-pertencimento, não-raiz e desejo de ser do mundo, de qualquer lugar ou de lugar nenhum. Gosto do anonimato das grandes cidades: mil rostos, mil caras, nenhum sobrenome, nenhuma herança. Há qualquer coisa de fascinante neste desprendimento e na desobrigação de ser alguém. Não é nada contra a cidade em que nasci, como lugar: é apenas um desejo de não-lugar dentro de mim. Ou de muitos lugares ao mesmo tempo. E os lugares que moram em mim não são físicos, de concreto, aço e cimento – são lugares onde as pessoas têm tempo para não fazer nada, nas manhãs ensolaradas de sábado. Qualquer lugar em que as pessoas se abracem sem peguntar de onde você veio.

terça-feira, 22 de julho de 2008

foto will mac bride
PERIGO

não entre
se não quiser
perder a pose
não faça alarde
não respire fundo
não toque em nada
não grite
não desmonte o cenário
não mude de idéia
não perca o prumo
não volte atrás
não durma no ponto
não vá por ali
não perca a cabeça
não diga sim
não saia da linha
não se permita
não se detenha
não se esqueça
de lavar as mãos
ao sair
(me)
esqueça

terça-feira, 15 de julho de 2008

modigliani

olha, já que não posso mais cá estou enquanto uma lua gorda dança no céu em capricórnio quase quis te dizer que apesar da distância a imagem refletida nessas águas ainda é a sua aquela mesma antiga aparência fugidia de um corpo esguio e fino apontando para o alto alguma coisa meio céu meio chão mania de me prender com os olhos as mãos tão magras quase tocando as minhas sem poder nossos (des)encontros silenciosos o desenho da chuva um cheiro de mar preso aos teus cabelos sempre em desalinho eu parada querendo dizer olha aqui eu lembro daquela ilha os barcos uns canais flores suspensas quem sabe hortências numa cidade velha como a sua de mapas e rotas perdidas e ainda assim eu queria perder o rumo tropeçar no abismo para que o vento me pegasse de surpresa em pleno vôo.