
Nasci numa cidade pequena, no meio do mato, literalmente. Luz elétrica, automóveis e burburinho urbano não eram comuns para mim até os oito ou nove anos de idade (e nem faz tanto tempo assim!). Bicho-do-mato, saí de lá e quase me achei em outros lugares. Contam que meu avô materno descendia de “índios” bugres, que, dizem, eram nômades. Talvez venha daí minha inquietação e vontade constante de não-pertencimento, não-raiz e desejo de ser do mundo, de qualquer lugar ou de lugar nenhum. Gosto do anonimato das grandes cidades: mil rostos, mil caras, nenhum sobrenome, nenhuma herança. Há qualquer coisa de fascinante neste desprendimento e na desobrigação de ser alguém. Não é nada contra a cidade em que nasci, como lugar: é apenas um desejo de não-lugar dentro de mim. Ou de muitos lugares ao mesmo tempo. E os lugares que moram em mim não são físicos, de concreto, aço e cimento – são lugares onde as pessoas têm tempo para não fazer nada, nas manhãs ensolaradas de sábado. Qualquer lugar em que as pessoas se abracem sem peguntar de onde você veio.